Crinear Project Monolith

Não é novidade para ninguém que nos últimos anos, o cenário dos fones de ouvido, especialmente os intra-auriculares ou IEMs, tem visto uma certa homogeneização de tunings. As curvas de resposta em frequência dos fones e suas medições foram extremamente popularizadas por crinacle, um ex-reviewer de Singapura, dono da maior base de medições de fones do mundo atualmente, responsável por alguns dos fones collab mais lendários do hobby e dono da Crinear, sua marca de fones, e The Hangout, sua loja de IEMs. Os fones em que crinacle tem seu nome estampado sempre prezaram pela naturalidade e por uma boa aderência à curvas alvo como JM1 ou IEF Neutral 2020, com algumas colorações no tuning. O nome crinacle, junto de suas medições e fones collab sempre muito bem recebidos tiveram uma grande influência no que hoje é descrito como uma homogeneização do hobby: cada vez mais marcas fazem produtos que seguem a mesma linha geral de tuning, que hoje é a JM1 com alguma coloração (normalmente um shelf nos subgraves e um boost nos agudos altos). É dentro desse contexto que escrevo esse review.

O Project Monolith é o quarto fone da Crinear e segundo fone de tiragem limitada da marca, sendo feitas 999 unidades e vendidas cada uma a US$ 399 exclusivamente na The Hangout, como também foi feito com o Project Meta - primeiro fone da marca - o que permite a redução de alguns custos relacionados a distribuição. A linha Project tem a proposta de serem fones em produção limitada, com alguma peculiaridade no tuning e com o propósito de desenvolver novas tecnologias e técnicas de manufatura que são então repassadas para fones de produção normal, além de financiar a produção dos mesmos. No caso do Monolith, a sua ‘artimanha’ de tuning é ter graves. MUITOS graves.

Construção e acessórios

O Monolith é um fone que não veio para ser discreto: ele é talhado de um bloco único de latão e todo folheado a ouro champagne, os conectores e divisores do cabo também seguem esse mesmo acabamento e até mesmo a case do fone é folheada a ouro, porém feita de alumínio com um acabamento aveludado em seu interior. Ele vem com 10 pares de eartips, sendo 3 pares de ponteiras “padrão”, 3 pares de ponteiras mais curtas (shorter bore), 3 pares de ponteiras de bocal largo e um par de ponteiras de espuma. São eartips bastante genéricas, que me dão um certo incômodo nos ouvidos. O cabo do fone é bem feito e grosso, transparecendo qualidade às mãos; porém o ele também é surpreendentemente pesado e não é o mais maleável de todos, tendo um pouco de memória. Além disso, possui um conector modular, possibilitando a troca entre 4.4mm e 3.5mm.

Crinear Project Monolith

O fone em si é extremamente denso e pesado apesar de seu tamanho relativamente diminuto e encaixa bem nos ouvidos, sendo bastante confortável mesmo por períodos prolongados. Para este teste, a ponteira que melhor me serviu foi a Final Type E. Um ponto estranho que notei durante o uso foi a presença de um som metálico ao colocar os fones no ouvido, quase como se a pressão que se cria ao inserir os fones movesse levemente algum componente interno e o fizesse encostar nas paredes internas do fone, o que faz sentido dada a estrutura do fone que utiliza apenas os tubos maquinados durante o processo de produção do fone.

O Som

SANTO GRAVE DE PAREDÃ- não é bem assim. Apesar da proposta do fone poder levar alguém a pensar que esse fone é puro grave invadindo médios, agudos e tudo o que tiver pela frente, o Project Monolith soa como um fone normal, da nova meta….. com uma quantidade considerável de graves. E devo adicionar que ele requer um pouco mais de potência do que a maioria dos IEMs. Se o Project Meta eu preciso deixar em 30% de volume no meu DAP, o Monolith precisa que eu coloque o volume em 40% para chegar em um volume relativamente similar.

  • Graves

Começando com a estrela do show, os graves certamente chamam a atenção. O Monolith tem uma quantidade bastante considerável de não só subgraves como também médio graves, o que tira o fone do clichê, já que é uma região que a imensa maioria dos fones hoje evita aumentar nesse nível. Na maioria do tempo que passei escutando esse fone, os graves nunca me incomodaram nem passaram do ponto. O shelf é muito bem colocado, em aproximadamente 300hZ, e em momento algum invadiram os médios durante minhas audições normais, dando um corpo e peso a mais para bumbos e baixos, sem poluir guitarras, vozes e outros instrumentos menos dependentes de graves. Aumentando o volume e colocando em death metal (ICDD, Undead Corporation, etc), os graves passaram do ponto, poluindo a apresentação geral com uma gordura dos graves que fica “ressonando” junto de todos os instrumentos, sendo bastante incômodo nesse caso. MAS eu escuto em volumes bem baixos então, pessoalmente, isso nunca me incomodou durante o uso normal.

Quanto à percepção subjetiva de tecnicalidades dos graves do fone, pessoalmente, são graves Ok. Acredito que devido à presença extra de médio-graves, toda essa região do fone passa uma certa sensação de “maciez”, se isso faz sentido. Não são sem definição ou “graves de uma nota só”, mas certamente não impressionam com textura. Os graves possuem um impacto decente mas o que realmente chama a atenção neles é o peso que eles tem, trazendo uma apresentação um pouco diferente de outros fones, que focam mais em subgraves e tem um soco mais “sequinho”.

  • Médios

A região média desse fone é bastante normal e digo isso como um elogio. Dada a quantidade cavalar de graves que esse fone tem, é um feito considerável o crinacle ter conseguido médios com uma resposta tão natural e agradável quanto aqui. São médios de um fone JM1 convencional. Vozes tem uma presença muito correta para os meus ouvidos, conseguindo cortar com facilidade as baixas frequências. Outros instrumentos como guitarras, saxofones, sintetizadores, etc. também conseguem um bom destaque meio os graves, sem que eles pareçam afogados pelas graves durante a minha audição. Além disso, não notei nenhuma agressividade nos instrumentos que pudesse ser causada por um ganho maior nessa região para compensar os graves.

Falando sobre as tecnicalidades da região, aqui eles ficam melhores do que os graves. Instrumentos e vozes tem uma textura que considero bastante natural, sem a sensação de que o fone está esfregando detalhamento artificial nos ouvidos.

  • Agudos

Ironicamente, a parte que mais me surpreendeu no fone. Com as Type E, consigo agudos que me soam extremamente lisos, com nenhum vale e com um leve pico em aproximadamente 10500hZ, apesar da extensão não ser das melhores. Assim, para os meus ouvidos, os agudos soam surpreendentemente bem colocados, naturais, lisos e com praticamente nenhuma sensação de aspereza. A quantidade, apesar de mais comedida do que eu consideraria “neutro”, também é muitíssimo do meu agrado, com presença o suficiente pra colocar uma certa leveza na apresentação, dando arejamento e ajudando no recorte e decaimento dos instrumentos de maneira bastante agradável para os meus gostos, sem nunca soar agressivo para mim.

Conclusões

O Project Monolith é um fone extremamente interessante, porém nichado. Mas eu gosto bastante dele. Talvez até por influência do meu hábito de ouvir música em volumes mais baixos, o Monolith acaba fazendo algo que acho deveras inusitado: ele me permite ouvir os graves das músicas de maneira competente mesmo em volumes bastante baixos. Então é isso. Bom fone pra quem é basshead….. ou pra quem ouve em volume negativo e quer escutar algum grave da música. Dado o seu lançamento em unidades limitadas e o fato de que esse fone não foi oficialmente enviado pro Brasil, todo o trabalho de achar uma unidade no mercado de usados, seja em mercado nacional ou no exterior, fica difícil de justificar o investimento em tempo e dinheiro considerando apenas o aspecto sonoro do fone. Porém, pode ser uma adição interessante à uma coleção mais completa para quem quer um fone pelo aspecto mais colecionista.